domingo, 8 de agosto de 2010

não, obrigado, nós já comemos.

Sem volta


O exílio e a volta. Trata-se sempre disto. O evento e sua memória. O fato e a sua contemplação, o sentido e o imaginário, e o que podia ter sido. O exílio é a tua história, a volta é a tua história mais íntima. Literatura. O teu quarto de criança, a mancha da tua cabeça na tábua da cama, antes do exílio. Os restos das barcaças na praia. 30 anos depois da guerra. Sopra um vento frio.  A câmara faz uma panorâmica lenta, na trilha, os ruídos da batalha antiga. Você podia jurar que o quarto era maior.

A história retomada pela arte. Um truque com palavras: Nabokov escrevendo em inglês sobre um passado na Rússia em que todos falavam françês. O evento destilado em camadas de imagens, como um bourbon pelo carvão.  (E a tradução em português estraga tudo.) A volta é sempre pela imaginação, nada é retomado inteiro. O que te acontece num minuto no minuto seguinte é história, no outro é invenção, no quarto é Nabokov. E aí não tem mais volta.

A Bíblia não conta, mas Adão e Eva voltaram ao Paraíso depois do banimento. E levaram as crianças. Percorrem tudo em silêncio. As crianças reclamando cansadas, aquilo não significa nada para elas. Aqui foi onde Ele tirou a minha costela para fazer a mamãe, só de pensar me dá uma dor no lado. Faz tanto tempo. Olha ali a árvore com nossas iniciais e dois estômagos trespassados por um flecha. Como é que nós íamos saber que era o coração? Nós não sabíamos nada. E lá adiante o matinho onde nós, pela primeira vez...

- Adão! As crianças...

Mas as crianças se entretêm com a carcaça de uma cobra. Escurece. O guia vem avisar que está na hora de fechar e oferece uma maçã pintada, souvenir do lugar. Adão e Eva se entreolham, tristemente. Não, obrigado, nós já comemos.

Lenine volta à estação Finlândia. A estação está deserta. Seus olhos fazem uma panorâmica lenta sobre os trilhos. Sobe a música. Ele imagina a cena, a multidão, o triunfo, eu podia jurar que era maior. Claudiomiro na área depois que todos foram embora. Sopra um vento frio. Quem não viu este filme? Como foi mesmo o gol? O vídeo-teipe é o gol feito literatura, mas só Claudiomiro tem na memória a alternativa do gol, o que podia ter sido. O fato é o mesmo para todos, mas cada um volta ao fato à sua maneira.  E quando vai pegar já pega a terceira versão do fato, revisada pelo autor. O criminoso nunca volta ao local exato do crime. E também não era bem isto que eu queria dizer.

T.S. Eliot: e depois disso, o nosso exílio. O resto do poema não importa, a frase é tudo. A postura intelectual do nosso tempo, a lamentação depois da queda. O paraíso perdido, o quintal da casa coberto com mato, a nossa infância pastoral na Rússia antes de Lenine com primas que mostravam tudo. Só quem viveu antes da Revolução conece as delícias da vida. A Época de Ouro de qualquer coisa é sempre a que veio antes da nossa, gozado. E não há como escapar dessa morbidez. A alternativa é a dos novos inocentes: tudo legal, magro. Uma cultura sem memória, sem queda, de quem já nasceu no exílio e está gostando. Para os novos inocentes não há nenhuma antipatia entre o fato e a versão, tudo legal. Você e eu bem que gostaríamos de ser desse mundo, mas não temos mais volta. A memória é uma danação mas ela é tão nossa quanto a barriga e os velhos hábitos. Uma nova consciência? Não, obrigado, nós já comemos.

(Luis Fernando Verissimo - Ed Mort e Outras Histórias, 2ª edição, página 125)

domingo, 18 de julho de 2010

"Vamos lá, Pandora, abre o ventre, e digere-me."

Primeiramente, tomei a figura de um barbeiro chinês, bojudo, destro, escanhoando um
mandarim, que me pagava o trabalho com beliscões e confeitos: caprichos de mandarim.
Logo depois, senti-me transformado na Summa Theologica e São Tomás, impressa num
volume, e encadernada em marroquim, com fechos de prata e estampas; idéia esta que me deu
ao corpo a mais completa imobilidade; e ainda agora me lembra que, sendo as minhas mãos
os fechos do livro, e cruzando-as eu sobre o ventre, alguém as descruzava (Virgília decerto),

porque a atitude lhe dava a imagem de um defunto.


Ultimamente, restituído à forma humana, vi chegar um hipopótamo, que me arrebatou.
Deixei-me ir, calado, não sei se por medo ou confiança; mas, dentro em pouco, a carreira de
tal modo se tomou vertiginosa, que me atrevia interrogá-lo, e com alguma arte lhe disse que a

viagem me parecia sem destino.


- Engana-se, replicou o animal, nós vamos à origem dos séculos.


Insinuei que deveria ser muitíssimo longe; mas o hipopótamo não me entendeu ou não me
ouviu, se é que não fingiu uma dessas coisas; e, perguntando-lhe, visto que ele falava, se era
descendente do cavalo de Aquiles ou da asna de Balaão, retorquiu-me com um gesto peculiar
a estes dois quadrúpedes: abanou as orelhas. Pela minha parte fechei os olhos e deixei-me ir à
ventura. Já agora não se me dá de confessar que sentia umas tais ou quais cócegas de
curiosidade, por saber onde ficava a origem dos séculos, se era tão misteriosa como a origem
do Nilo, e sobretudo se valia alguma coisa mais ou menos do que a consumação dos mesmos
séculos, tudo isto reflexões de um cérebro enfermo. Como ia de olhos fechados, não via o
caminho; lembra-me só que a sensação de frio aumentava com a jornada, e que chegou uma
ocasião em que me pareceu entrar na região dos gelos eternos. Com efeito, abri os olhos e vi
que o meu animal galopava numa planície branca de neve, com uma ou outra montanha de
neve, vegetação de neve, e vários animais grandes e de neve. Tudo neve; chegava a gelar-nos
um sol de neve. Tentei falar, mas apenas pude grunhir esta pergunta ansiosa:

- Onde estamos?


- Já passamos o Éden.


- Bem; paremos na tenda de Abraão.


- Mas se nós caminhamos para trás! redargüiu motejando a minha cavalgadura.


Fiquei vexado e aturdido. A jornada entrou a parecer-me enfadonha e extravagante, o frio
incômodo, a condução violenta, e o resultado impalpável. E depois -- cogitações de enfermo
-- dado que chegássemos ao fim indicado, não era impossível que os séculos, irritados com
lhes devassarem a origem, me esmagassem entre as unhas que deviam ser tão seculares como
eles. Enquanto assim pensava, íamos devorando caminho, e a planície voava debaixo dos
nossos pés, até que o animal estacou, e pude olhar mais tranqüilamente em tomo de mim.
Olhar somente; nada vi, além da imensa brancura da neve, que desta vez invadira o próprio
céu, até ali azul. Talvez, a espaços, me aparecia uma ou outra planta, enorme, brutesca,
meneando ao vento as suas largas folhas. O silêncio daquela região era igual ao do sepulcro:

dissera-se que a vida das coisas ficara estúpida diante do homem.


Caiu do ar? destacou-se da terra? não sei; sei que um vulto imenso, uma figura de mulher
me apareceu então, fitando-me uns olhos rutilantes como o sol. Tudo nessa figura tinha a
vastidão das formas selváticas, e tudo escapava à compreensão do olhar humano, porque os
contornos perdiam-se no ambiente, e o que parecia espesso era muita vez diáfano. Estupefato,
não disse nada, não cheguei sequer a soltar um grito; mas, ao cabo de algum tempo, que foi

breve, perguntei quem era e como se chamava: curiosidade de delírio.


- Chama-me Natureza ou Pandora; sou tua mãe e tua inimiga.


Ao ouvir esta última palavra, recuei um pouco, tomado de susto. A figura soltou uma
gargalhada, que produziu em torno de nós o efeito de um tufão; as plantas torceram-se e um

longo gemido quebrou a mudez das coisas externas.


- Não te assustes, disse ela, minha inimizade não mata; é sobretudo pela vida que se

afirma. Vives: não quero outro flagelo.


- Vivo? perguntei eu, enterrando as unhas nas mãos, como para certificar-me da

existência.


- Sim, verme, tu vives. Não receies perder esse andrajo que é teu orgulho; provarás ainda,
por algumas horas, o pão da dor e o vinho da miséria. Vives: agora mesmo que ensandeceste,

vives; e se a tua consciência reouver um instante de sagacidade, tu dirás que queres viver.


Dizendo isto, a visão estendeu o braço, segurou-me pelos cabelos e levantou-me ao ar,
como se fora uma simples pluma. Só então, pude ver-lhe de perto o rosto, que era enorme.
Nada mais quieto; nenhuma contorção violenta, nenhuma expressão de ódio ou ferocidade; a
feição única, geral, completa, era a da impassibilidade egoísta, a da eterna surdez, a da
vontade imóvel. Raivas, se as tinha, ficavam encerradas no coração. Ao mesmo tempo, nesse
rosto de expressão glacial, havia um ar de juventude, mescla de força e viço, diante do qual

me sentia eu o mais débil e decrépito dos seres.


- Entendeste-me? disse ela, no fim de algum tempo de mútua contemplação.


- Não, respondi; nem quero entender-te; tu és absurda, tu és uma fábula. Estou sonhando,
decerto, ou, se é verdade que enlouqueci, tu não passas de uma concepção de alienado, isto é,
uma coisa vã, que a razão ausente não pode reger nem palpar. Natureza, tu? a Natureza que eu
conheço é só mãe e não inimiga; não faz da vida um flagelo, nem, como tu, traz esse rosto

indiferente, como o sepulcro. E por que Pandora?


- Porque levo na minha bolsa os bens e os males, e o maior de todos, a esperança,

consolação dos homens. Tremes?


- Sim; o teu olhar fascina-me.


- Creio; eu não sou somente a vida; sou também a morte, e tu estás prestes a devolver-me

o que te emprestei. Grande lascivo, espera-te a voluptuosidade do nada.


Quando esta palavra ecoou, como um trovão, naquele imenso vale, afigurou-se-me que
era o último som que chegava a meus ouvidos; pareceu-me sentir a decomposição súbita de

mim mesmo. Então, encarei-a com olhos súplices, e pedi mais alguns anos.


- Pobre minuto! exclamou. Para que queres tu mais alguns instantes de vida! Para devorar
e seres devorado depois! Não estás farto do espetáculo e da luta? Conheces de sobejo tudo o
que eu te deparei menos torpe ou menos aflitivo: o alvor do dia, a melancolia da tarde, a
quietação da noite, os aspectos da terra, o sono, enfim, o maior benefício das minhas mãos.

Que mais queres tu, sublime idiota?


- Viver somente, não te peço mais nada. Quem me pôs no coração este amor da vida, se

não tu? e, se eu amo a vida, por que te hás de golpear a ti mesma, matando-me?


- Porque já não preciso de ti. Não importa ao tempo o minuto que passa, mas o minuto
que vem. O minuto que vem é forte, jocundo, supõe trazer em si a eternidade, e traz a morte, e
perece como o outro, mas o tempo subsiste. Egoísmo, dizes tu? Sim, egoísmo, não tenho outra
lei. Egoísmo, conservação. A onça mata o novilho porque o raciocínio da onça é que ela deve

viver, e se o novilho é tenro tanto melhor: eis o estatuto universal. Sobe e olha.


Isto dizendo, arrebatou-me ao alto de uma montanha. Inclinei os olhos a uma das
vertentes, e contemplei, durante um tempo largo, ao longe, através de um nevoeiro, uma coisa
única. Imagina tu, leitor, uma redução dos séculos, e um desfilar de todos eles, as raças todas,
todas as paixões, o tumulto dos impérios, a guerra dos apetites e dos ódios, a destruição
recíproca dos seres e das coisas. Tal era o espetáculo, acerbo e curioso espetáculo. A história
do homem e da terra tinha assim uma intensidade que lhe não podiam dar nem a imaginação
nem a ciência, porque a ciência é mais lenta e a imaginação mais vaga, enquanto que o que eu
ali via era a condensação viva de todos os tempos. Para descrevê-la seria preciso fixar o
relâmpago. Os séculos desfilavam num turbilhão, e, não obstante, porque os olhos do delírio
são outros, eu via tudo o que passava diante de mim, -- flagelos e delícias, -- desde essa coisa
que se chama glória até essa outra que se chama miséria, e via o amor multiplicando a
miséria, e via a miséria agravando a debilidade. Aí vinham a cobiça que devora, a cólera que
inflama, a inveja que baba, e a enxada e a pena, úmidas de suor, e a ambição, a fome, a
vaidade, a melancolia, a riqueza, o amor, e todos agitavam o homem, como um chocalho, até
destruí-lo, como um farrapo. Eram as formas várias de um mal, que ora mordia a víscera, ora
mordia o pensamento, e passeava eternamente as suas vestes de arlequim, em derredor da
espécie humana. A dor cedia alguma vez, mas cedia à indiferença, que era um sono sem
sonhos, ou ao prazer, que era uma dor bastarda. Então o homem, flagelado e rebelde, corria
diante da fatalidade das coisas, atrás de uma figura nebulosa e esquiva, feita de retalhos, um
retalho de impalpável, outro de improvável, outro de invisível, cosidos todos a ponto precário,
com a agulha da imaginação; e essa figura, -- nada menos que a quimera da felicidade, -- ou
lhe fugia perpetuamente, ou deixava-se apanhar pela fralda, e o homem a cingia ao peito, e

então ela ria, como um escárnio, e sumia-se, como uma ilusão.


Ao contemplar tanta calamidade, não pude reter um grito de angústia, que Natureza ou
Pandora escutou sem protestar nem rir; e não sei por que lei de transtorno cerebral, fui eu que

me pus a rir, -- de um riso descompassado e idiota.


-- Tens razão, disse eu, a coisa é divertida e vale a pena, -- talvez monótona -- mas vale a
pena. Quando Jó amaldiçoava o dia em que fora concebido, é porque lhe davam ganas de ver
cá de cima o espetáculo. Vamos lá, Pandora, abre o ventre, e digere-me; a coisa é divertida,

mas digere-me.


A resposta foi compelir-me fortemente a olhar para baixo, e a ver os séculos que
continuavam a passar, velozes e turbulentos, as gerações que se superpunham às gerações,
umas tristes, como os Hebreus do cativeiro, outras alegres, como os devassos de Cômodo, e
todas elas pontuais na sepultura. Quis fugir, mas uma força misteriosa me retinha os pés;
então disse comigo: -- "Bem, os séculos vão passando, chegará o meu, e passará também, até
o último, que me dará a decifração da eternidade." E fixei os olhos, e continuei a ver as
idades, que vinham chegando e passando, já então tranqüilo e resoluto, não sei até se alegre.
Talvez alegre. Cada século trazia a sua porção de sombra e de luz, de apatia e de combate, de
verdade e de erro, e o seu cortejo de sistemas, de idéias novas, de novas ilusões; em cada um
deles rebentavam as verduras de uma primavera, e amareleciam depois, para remoçar mais
tarde. Ao passo que a vida tinha assim uma regularidade de calendário, faziam-se a história e
a civilização, e o homem, nu e desarmado, armava-se e vestia-se, construía o tugúrio e o
palácio, a rude aldeia e Tebas de cem portas, criava a ciência, que perscruta, e a arte que
enleva, fazia-se orador, mecânico, filósofo, corria a face do globo, descia ao ventre da terra,
subia à esfera das nuvens, colaborando assim na obra misteriosa, com que entretinha a
necessidade da vida e a melancolia do desamparo. Meu olhar, enfarado e distraído, viu enfim
chegar o século presente, e atrás dele os futuros. Aquele vinha ágil, destro, vibrante, cheio de
si, um pouco difuso, audaz, sabedor, mas ao cabo tão miserável como os primeiros, e assim
passou e assim passaram os outros, com a mesma rapidez e igual monotonia. Redobrei de
atenção; fitei a vista; ia enfim ver o último, -- o último!; mas então já a rapidez da marcha era
tal, que escapava a toda a compreensão; ao pé dela o relâmpago seria um século. Talvez por
isso entraram os objetos a trocarem-se; uns cresceram, outros minguaram, outros perderam-se
no ambiente; um nevoeiro cobriu tudo -- menos o hipopótamo que ali me trouxera, e que aliás
começou a diminuir, a diminuir, a diminuir, até ficar do tamanho de um gato. Era
efetivamente um gato. Encarei-o bem; era o meu gato Sultão, que brincava à porta da alcova, com uma bola de papel...


(Machado de Assis - Memórias Póstumas de Brás Cubas, Cap. VII)