mandarim, que me pagava o trabalho com beliscões e confeitos: caprichos de mandarim.
Logo depois, senti-me transformado na Summa Theologica e São Tomás, impressa num
volume, e encadernada em marroquim, com fechos de prata e estampas; idéia esta que me deu
ao corpo a mais completa imobilidade; e ainda agora me lembra que, sendo as minhas mãos
os fechos do livro, e cruzando-as eu sobre o ventre, alguém as descruzava (Virgília decerto),
porque a atitude lhe dava a imagem de um defunto.
Deixei-me ir, calado, não sei se por medo ou confiança; mas, dentro em pouco, a carreira de
tal modo se tomou vertiginosa, que me atrevia interrogá-lo, e com alguma arte lhe disse que a
viagem me parecia sem destino.
- Engana-se, replicou o animal, nós vamos à origem dos séculos.
ouviu, se é que não fingiu uma dessas coisas; e, perguntando-lhe, visto que ele falava, se era
descendente do cavalo de Aquiles ou da asna de Balaão, retorquiu-me com um gesto peculiar
a estes dois quadrúpedes: abanou as orelhas. Pela minha parte fechei os olhos e deixei-me ir à
ventura. Já agora não se me dá de confessar que sentia umas tais ou quais cócegas de
curiosidade, por saber onde ficava a origem dos séculos, se era tão misteriosa como a origem
do Nilo, e sobretudo se valia alguma coisa mais ou menos do que a consumação dos mesmos
séculos, tudo isto reflexões de um cérebro enfermo. Como ia de olhos fechados, não via o
caminho; lembra-me só que a sensação de frio aumentava com a jornada, e que chegou uma
ocasião em que me pareceu entrar na região dos gelos eternos. Com efeito, abri os olhos e vi
que o meu animal galopava numa planície branca de neve, com uma ou outra montanha de
neve, vegetação de neve, e vários animais grandes e de neve. Tudo neve; chegava a gelar-nos
um sol de neve. Tentei falar, mas apenas pude grunhir esta pergunta ansiosa:
- Onde estamos?
- Já passamos o Éden.
- Bem; paremos na tenda de Abraão.
- Mas se nós caminhamos para trás! redargüiu motejando a minha cavalgadura.
incômodo, a condução violenta, e o resultado impalpável. E depois -- cogitações de enfermo
-- dado que chegássemos ao fim indicado, não era impossível que os séculos, irritados com
lhes devassarem a origem, me esmagassem entre as unhas que deviam ser tão seculares como
eles. Enquanto assim pensava, íamos devorando caminho, e a planície voava debaixo dos
nossos pés, até que o animal estacou, e pude olhar mais tranqüilamente em tomo de mim.
Olhar somente; nada vi, além da imensa brancura da neve, que desta vez invadira o próprio
céu, até ali azul. Talvez, a espaços, me aparecia uma ou outra planta, enorme, brutesca,
meneando ao vento as suas largas folhas. O silêncio daquela região era igual ao do sepulcro:
dissera-se que a vida das coisas ficara estúpida diante do homem.
me apareceu então, fitando-me uns olhos rutilantes como o sol. Tudo nessa figura tinha a
vastidão das formas selváticas, e tudo escapava à compreensão do olhar humano, porque os
contornos perdiam-se no ambiente, e o que parecia espesso era muita vez diáfano. Estupefato,
não disse nada, não cheguei sequer a soltar um grito; mas, ao cabo de algum tempo, que foi
breve, perguntei quem era e como se chamava: curiosidade de delírio.
- Chama-me Natureza ou Pandora; sou tua mãe e tua inimiga.
gargalhada, que produziu em torno de nós o efeito de um tufão; as plantas torceram-se e um
longo gemido quebrou a mudez das coisas externas.
afirma. Vives: não quero outro flagelo.
existência.
por algumas horas, o pão da dor e o vinho da miséria. Vives: agora mesmo que ensandeceste,
vives; e se a tua consciência reouver um instante de sagacidade, tu dirás que queres viver.
como se fora uma simples pluma. Só então, pude ver-lhe de perto o rosto, que era enorme.
Nada mais quieto; nenhuma contorção violenta, nenhuma expressão de ódio ou ferocidade; a
feição única, geral, completa, era a da impassibilidade egoísta, a da eterna surdez, a da
vontade imóvel. Raivas, se as tinha, ficavam encerradas no coração. Ao mesmo tempo, nesse
rosto de expressão glacial, havia um ar de juventude, mescla de força e viço, diante do qual
me sentia eu o mais débil e decrépito dos seres.
- Entendeste-me? disse ela, no fim de algum tempo de mútua contemplação.
decerto, ou, se é verdade que enlouqueci, tu não passas de uma concepção de alienado, isto é,
uma coisa vã, que a razão ausente não pode reger nem palpar. Natureza, tu? a Natureza que eu
conheço é só mãe e não inimiga; não faz da vida um flagelo, nem, como tu, traz esse rosto
indiferente, como o sepulcro. E por que Pandora?
consolação dos homens. Tremes?
- Sim; o teu olhar fascina-me.
o que te emprestei. Grande lascivo, espera-te a voluptuosidade do nada.
era o último som que chegava a meus ouvidos; pareceu-me sentir a decomposição súbita de
mim mesmo. Então, encarei-a com olhos súplices, e pedi mais alguns anos.
e seres devorado depois! Não estás farto do espetáculo e da luta? Conheces de sobejo tudo o
que eu te deparei menos torpe ou menos aflitivo: o alvor do dia, a melancolia da tarde, a
quietação da noite, os aspectos da terra, o sono, enfim, o maior benefício das minhas mãos.
Que mais queres tu, sublime idiota?
não tu? e, se eu amo a vida, por que te hás de golpear a ti mesma, matando-me?
que vem. O minuto que vem é forte, jocundo, supõe trazer em si a eternidade, e traz a morte, e
perece como o outro, mas o tempo subsiste. Egoísmo, dizes tu? Sim, egoísmo, não tenho outra
lei. Egoísmo, conservação. A onça mata o novilho porque o raciocínio da onça é que ela deve
viver, e se o novilho é tenro tanto melhor: eis o estatuto universal. Sobe e olha.
vertentes, e contemplei, durante um tempo largo, ao longe, através de um nevoeiro, uma coisa
única. Imagina tu, leitor, uma redução dos séculos, e um desfilar de todos eles, as raças todas,
todas as paixões, o tumulto dos impérios, a guerra dos apetites e dos ódios, a destruição
recíproca dos seres e das coisas. Tal era o espetáculo, acerbo e curioso espetáculo. A história
do homem e da terra tinha assim uma intensidade que lhe não podiam dar nem a imaginação
nem a ciência, porque a ciência é mais lenta e a imaginação mais vaga, enquanto que o que eu
ali via era a condensação viva de todos os tempos. Para descrevê-la seria preciso fixar o
relâmpago. Os séculos desfilavam num turbilhão, e, não obstante, porque os olhos do delírio
são outros, eu via tudo o que passava diante de mim, -- flagelos e delícias, -- desde essa coisa
que se chama glória até essa outra que se chama miséria, e via o amor multiplicando a
miséria, e via a miséria agravando a debilidade. Aí vinham a cobiça que devora, a cólera que
inflama, a inveja que baba, e a enxada e a pena, úmidas de suor, e a ambição, a fome, a
vaidade, a melancolia, a riqueza, o amor, e todos agitavam o homem, como um chocalho, até
destruí-lo, como um farrapo. Eram as formas várias de um mal, que ora mordia a víscera, ora
mordia o pensamento, e passeava eternamente as suas vestes de arlequim, em derredor da
espécie humana. A dor cedia alguma vez, mas cedia à indiferença, que era um sono sem
sonhos, ou ao prazer, que era uma dor bastarda. Então o homem, flagelado e rebelde, corria
diante da fatalidade das coisas, atrás de uma figura nebulosa e esquiva, feita de retalhos, um
retalho de impalpável, outro de improvável, outro de invisível, cosidos todos a ponto precário,
com a agulha da imaginação; e essa figura, -- nada menos que a quimera da felicidade, -- ou
lhe fugia perpetuamente, ou deixava-se apanhar pela fralda, e o homem a cingia ao peito, e
então ela ria, como um escárnio, e sumia-se, como uma ilusão.
Pandora escutou sem protestar nem rir; e não sei por que lei de transtorno cerebral, fui eu que
me pus a rir, -- de um riso descompassado e idiota.
pena. Quando Jó amaldiçoava o dia em que fora concebido, é porque lhe davam ganas de ver
cá de cima o espetáculo. Vamos lá, Pandora, abre o ventre, e digere-me; a coisa é divertida,
mas digere-me.
continuavam a passar, velozes e turbulentos, as gerações que se superpunham às gerações,
umas tristes, como os Hebreus do cativeiro, outras alegres, como os devassos de Cômodo, e
todas elas pontuais na sepultura. Quis fugir, mas uma força misteriosa me retinha os pés;
então disse comigo: -- "Bem, os séculos vão passando, chegará o meu, e passará também, até
o último, que me dará a decifração da eternidade." E fixei os olhos, e continuei a ver as
idades, que vinham chegando e passando, já então tranqüilo e resoluto, não sei até se alegre.
Talvez alegre. Cada século trazia a sua porção de sombra e de luz, de apatia e de combate, de
verdade e de erro, e o seu cortejo de sistemas, de idéias novas, de novas ilusões; em cada um
deles rebentavam as verduras de uma primavera, e amareleciam depois, para remoçar mais
tarde. Ao passo que a vida tinha assim uma regularidade de calendário, faziam-se a história e
a civilização, e o homem, nu e desarmado, armava-se e vestia-se, construía o tugúrio e o
palácio, a rude aldeia e Tebas de cem portas, criava a ciência, que perscruta, e a arte que
enleva, fazia-se orador, mecânico, filósofo, corria a face do globo, descia ao ventre da terra,
subia à esfera das nuvens, colaborando assim na obra misteriosa, com que entretinha a
necessidade da vida e a melancolia do desamparo. Meu olhar, enfarado e distraído, viu enfim
chegar o século presente, e atrás dele os futuros. Aquele vinha ágil, destro, vibrante, cheio de
si, um pouco difuso, audaz, sabedor, mas ao cabo tão miserável como os primeiros, e assim
passou e assim passaram os outros, com a mesma rapidez e igual monotonia. Redobrei de
atenção; fitei a vista; ia enfim ver o último, -- o último!; mas então já a rapidez da marcha era
tal, que escapava a toda a compreensão; ao pé dela o relâmpago seria um século. Talvez por
isso entraram os objetos a trocarem-se; uns cresceram, outros minguaram, outros perderam-se
no ambiente; um nevoeiro cobriu tudo -- menos o hipopótamo que ali me trouxera, e que aliás
começou a diminuir, a diminuir, a diminuir, até ficar do tamanho de um gato. Era
efetivamente um gato. Encarei-o bem; era o meu gato Sultão, que brincava à porta da alcova, com uma bola de papel...
(Machado de Assis - Memórias Póstumas de Brás Cubas, Cap. VII)
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